O Silêncio

                                                                                     

                Deus, nosso Criador e Salvador, deu-nos uma linguagem em que Ele pode ser anunciado, pois a fé nos vem pelo ouvido, e a nossa lingua é a chave que abre o céu aos outros.

         Mas, quando Ele vem como Esposo, nada fica por dizer, exceto que Ele vem e que devemos ir ao seu encontro. “Ecce Sponsus Venit! Exite obviam ei”. [ Eis que vem o Esposo! Saí ao seu encontro! (Mt 25,6)

           Saímos, então, a encontrá-lo na solidão. Ai nos comunicamos com Ele só, sem palavras, sem pensamentos discursivos, no silêncio de todo o nosso ser.

             Não é raro que o nosso silencio e as nossas orações levem mais ao conhecimento de Deus do que tudo o que dissermos sobre Ele.

              Se alguém entrar na solidão com uma língua silenciosa, as criaturas mudas partilharão com ele a sua tranquilidade. 

             Mas, se entra com um coração silencioso, o silencio da criação falará mais alto que a lingua dos homens e dos anjos.

            O Silêncio dos lábios e da imaginação dissolve o que nos separa da paz das coisas, que só existem para Deus e não para Si. Mas o silêncio de todo o desejo desordenado elimina a barreira que nos separa de Deus. Então passamos a viver só n’Ele.

            Os que amam o ruído que fazem, são impacientes com o resto. Desafiam cosntantemente o silêncio das florestas, das montanhas e do mar.

            Deus está presente, e o seu pensamento é vivo e palpitante na plenitude, na profundeza e na vastidão de todos os silencios do mundo. 

            Quer passe o avião está noite, quer amanhã, haja ou não haja carros na estrada, em curvas, conversem no campo os homens, haja ou não um rádio na casa, a àrvore floresce em silencio.

            O silencio nãod eve existir em nossa vida só por causa dele mesmo, ele é ordenado a outra coisa. O silencio é o pai da palavra. Uma vida inteira de silencio é ordenada a uma declaração final.

          vida e morte, palavras e silencio, são-nos dados por causa de Cristo. Em Cristo morremos para a carne e vivemos para o espírito. Morremos para ilusão e vivemos para a verdade.

         Recebemos no coração o silencio de Cristo quando, pela primeira vez, falamos de coração a palavra da Fé. Conseguimos a salvação no silencio e na esperança. O silêncio é a força da nossa vida interior. O silêncio entra misteriosamente na composição de todas as virtudes  e as preserva da corrupção.

          Sem tal silêncio, as nossas virtudes não passam de som, não passam de ruído exterior e manifestação de nada; o que revela as virtudes é a sua caridade interior, que tem um silêncio todo particular. E nesse silêncio se esconde uma pessoa: Cristo, Ele mesmo escondido, quando é falando no silêncio do Pai.

         Se enchermos de silêncio a nossa vida, viveremos em esperança, e Cristo viverá em nós, dando substância à nossa virtude.

          Se a nossa vida é dissipada em palavras  inúteis, jamais ouviremos qualquer coisa no fundo do nosso coração, onde Cristo vive e fala em silêncio.

         Nunca seremos nada, e, no fim, ao chegar a hora de mostrarmos quem somos, apareceremos sem nada a dizer no momento da decisão crucial: haveremos dito tudo e estaremos exaustos de fala antes mesmo de termos alguma coisa a dizer.

        Deve haver um momento no dia em que o homem que faz planos os esqueça e aja como se não os tivesse.

       Deve haver uma hora do dia em que o homem que precisa falar fique em silêncio, a sua mente não forme raciocínios, e ele se pergunte se os que fez tiveram algum sentido.

        Deve haver um tempo em que o homem de oração vá orar como se fosse a primeira vez na sua vida; em que o homem resoluto ponha de lado as suas decisões, como se estivessem quebradas, e ele aprenda uma nova sabedoria.

        No silêncio, aprendemos a fazer distinções. Os que fogem do silêncio, fogem também das distinções, preferem a confusão.

         Um homem que ama a Deus, necessariamente ama o silêncio, de medo de perder o seu senso de discernimento.

         A vida não deve ser olhada como uma torrente ininterrupta de palavras, finalmente silenciadas pela morte.

         Que ignora a existência de outra vida, ou que não consegue viver no tempo como uma criatura destinada a passar a eternidade em Deus, resite ao fecundo silencio do seu ser por um contínuo, ruído.

         A nossa vida inteira deve ser uma meditação da nossa ultima e principal decisão: a escolha entre a vida e a morte.

          Todos temos de morrer. Mas as disposições com que enfrentamos a morte fazem do nosso fim uma escolha de vida ou de morte.

          Se, durante a vida, escolhemos a vida, na morte passaremos da morte à vida. Vida é um bem espiritual, e os bens espirituais são silenciosos.

          Se,  no momento da morte, ela nos surpeende ocmo uma estrangeira  importuna, é que Cristo terá sido para nós um estranho importuno. Pois Cristo nos vem com a morte, trazendo-nos a vida eterna, que Ele nos adquiriu por sua morte. Quem ama pois, a verdadeira vida, pensa frequentemente na morte. Sua vida é cheia de um silêncio que é a vitória antecipada sobre a morte.

           Se digo que uma vida interior de silencio é ordenada a um pronunciamento final, não entendo que devamos todos nós imaginar morrer com pias frases nos lábios. Uma morte silenciosa pode testemunhar uma paz mais eloquente do que a morte marcada por vivazes expressões.

          Pois a eloquencia da morte é a eloquencia da pobreza humana face a face com as riquezas da divina misericórdia. Quanto mais percebermos a suprema extensão da nossa penúria, tanto maior será o sentido da nossa morte e maior a sua pobreza. Pois os santos são aqueles que preferiram ser mais pobres em vida e que, acima de tudo, exultaram diante da suprema pobreza da morte.

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