A Solidão Interior

                                                                                      

              A Caridade é um amor por Deus que respeita a necessidade que os outros têm de Deus. Por isso, só a caridade nos consegue dar o poder e a delicadeza de amar os outros sem corromper a solidão que lhes é necessária e os salva.

         Não insistamos demais no fato de que o amor procura penetrar os intimos segredos do amado. Quem se deixa apaixonar por essa idéia é desprovido de verdadeiro amor, porque em vez de respeitar, viola a solidão daqueles que ama. O verdadeiro amor penetra nos segredos e na solidão do amado quando lhe permite que guarde para si os seus segredos e continue solitário.

           Reserva e Solidão são valores que pertencem à própria essência da personalidade.

           Uma pessoa é pessoa a medida que possui segredo e constitui uma solidão. Se eu amo uma pessoa, amarei o que mais a faz ser pessoa: o mistério, o segredo, a solidão do seu ser, que só Deus pode penetrar e compreender.

          Compaixão e respeito ajudam-nos a conhecer  a solidão do próximo. Se respeito a solidão do meu irmão, reconhecê-la-ei pelos reflexos que lança, através da caridade  na solidão de minha alma.

          Se um homem desconhece o valor da sua própria solidão, como pode respeita-la nos outros? A solidão é tão necessária à sociedade, quanto o silêncio  à linguagem.

          A verdadeira solidão encontra-se na humildade. A falsa solidão é o refugio do orgulho e é infinitamente pobre. A solidão autêntica purifica a alma.

      A verdadeira solidão é a da “caritas… non quaerit quae sua sunt” [a caridade…não procura o que é seu] (I cor 13,5).

       Envergonha-se  de ter o que não lhe é devido. Procura a pobreza e renuncia a tudo o que não lhe é essencial.

       Nossa solidão pode ser fundamentalmente verdadeira, mas ainda imperfeita. Nesse caso contamina-se com o orgulho. É uma mistura confusa de ódio e amor. Um dos segredos da perfeição espiritual é perceber que possuímos essa mistura em nós e saber distinguir uma da outra. Pois a tentação dos que buscam a perfeição é tomar ódio pelo amor e colocar a sua perfeição numa vida solitária que distingue dos outros pelo ódio, pondo-se a amar e a odiar, ao mesmo tempo, o que eles têm de bom.

       O ascetismo do falso solitário é sempre falso. Pretende amar os outros mas os odeia, por conseguinte, a nossa reclusão enquanto for imperfeita, há de tingir-se de amargura e desgosto, porque esgotará por um constante conflito.

      A nossa solidão será imperfeita enquanto marcada de inquietação. Pois esse vício faz-nos odiar o que é bom e fugir das virtudes que só nos podem salvar.

       O verdadeiro solitário não tem que fugir dos outros: eles é que cessam de reparar nele, porque não compartilha a sua busca de ilusões. A alma verdadeiramente solitária torna-se incolor.

       A pura solidão interior encontra-se na virtude da esperança. A esperança nos retira inteiramente deste mundo, embora aí continuemos em corpo.

        Essa, a  verdadeira solidão, em torno da qual não há disputas nem questões. A alma que então se encontrou a si mesma, gravita em direção do deserto, mas não faz objeção em permanecer na cidade porque está só em toda parte.

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