Recolhimento

          O Recolhimento é uma transposição de foco, que harmoniza toda a nossa alma com o que está além e acima de nós. É uma “conversão”, uma “volta” do nosso ser às coisas espirituais e a Deus. O recolhimento purifica-nos a intenção. Ele recolhe todo o amor da alma e, depois de elevá-lo acima de toda a criação, dirige-o para Deus e para a sua vontade.

         O verdadeiro recolhimento conhece-se pelos efeitos; paz, silencio interior, tranquilidade de coração. O espírito recolhido é quieto e desprendido, ao menos em suas profundezas. Mas, como os frutos do recolhimento vêm da humildade, da caridade e de outras virtudes cristãs fundamentais, é claro que não pode haver recolhimento genuíno senão quando essas virtudes concorrem para dar-lhe substância e realidade.

       Concentração não é recolhimento. Podem os dois coexistir, mas, de ordinário, o fim do recolhimento não é concentrar o pensamento em um só ponto, mas, torná-lo difuso por simplificação, elevando-o, assim, a um nível que ultrapassa a tensão e a introspecção.

         O recolhimento é mais do que entrar em nós mesmos, e nem significa necessariamente a recusa do mundo exterior. O recolhimento não nega as coisas sensíveis; põe-nos em ordem. Se têm um sentido ele o percebe. O recolhimento leva a alma a Deus, cuja invisível presença é luz para aquele que vê as coisas através dela e acha, assim, a paz em si e em torno de si.

        O recolhimento não deveria ser visto como uma ausência, mas como uma presença.

        Em primeiro lugar, devemos ser presentes a nós mesmos. Os cuidados e preocupações da vida nos distânciam de nós mesmos. Enquanto nos entregarmos a essas coisas, a nossa mente estará fora de nós.

        Nosso lugar certo é o presente; aí podemos lançar a mão de tudo o que nos oferece. O recolhimento é o único meio que temos para fazer isso.

       Enquanto vivemos esta vida, ao mesmo tempo somos e não somos. Vivemos em transformação contínua, e todavia, é sempre a mesma pessoa que muda.

         Um homem é um ser livre que vive sempre a transformar-se. Essa mudança jamais é indiferente. Mudamos sempre para melhor ou para pior. O nosso desenvolvimento é medido por nossas livres escolhas, e o acabamos à imagem dos desejos que temos. Se os nossos desejos tendem àquilo que somos destinados a possuir, então nós nos tornaremos aquilo que realmente deveríamos ser. Mas, se eles tendem para coisas que não têm  sentido para o nosso crescimento espiritual, a nossa vida proclamará que mentimos a Deus, aos outros e a nós mesmos. Seremos estranhos a nós e a Deus.

      O recolhimento é, pois, o que me faz presente a tudo o que tem real sentido em cada momento da existência. As profundezas da minha alma deviam sempre estar recolhidas em Deus.

      Para ter recolhimento na ação, é preciso não me perder nele. E para continuar a agir é preciso não me perder nele. Por isso a atividade recolhida, significa equilibrio entre pureza interior e atenção externa.

        O segredo da ação recolhida é, em primeiro lugar, o desprendimento de si mesmo e dos resultados tanto da ação como da oração.

       Se é em paz e recolhimento que começamos o trabalho com a alama dirigida a Deus pela oração e pela intenção pura, evitaremos muitos perigos e preocupações inúteis no curso da nossa atividade. Forças dissipadas fatigam-se depressa. E o efeito do desperdício de esforços mal aplicados é o cansaço espiritual.

       Pensamentos que não vem do recolhimento tende, por sua própria natureza, a dispersar as nossas forças da reflexão e vontade.

       A ansiedade é fatal ao recolhimento, porque este depende, em última análise, da fé, e a ansiedade devora o coração da fé. Ela vem habitualmente desse estado de tensão, causado pela excessiva dependência em que ficamos de nós mesmos, dos nossos planos e da idéia que fazemos das nossas possibilidades.

       Mas não é difícil trabalharmos de modo recolhido, se a nossa intenção é continuamente purificada pela fé em Deus, por quem trabalhamos.

       Outro resultado do recolhimento é fazer-nos presentes a Deus e a nós mesmos em Deus. Em verdade estamos sempre diante d’Aquele que tudo vê e que, num só ato, conhece e conserva todas as coisas existentes.

       Quanto mais intenso, forte e prolongado o nosso recolhimento , tanto maior o perigo de cair na ilusão. Com o tempo, vai-se tornando fácil recolher-nos sem, de fato, entrarmos em contato com Deus. Esse recolhimento não passa de um artifício psicológico. É um ato de introspecção que se aprende sem muito esforço.

       Recolhimento sem fé confina o espírito numa prisão privada de luz e de ar. Recolhimento é o mesmo que solidão interior. É nele que descobrimos a finita solidão da alma, e a infinita solidão de Deus que habita em nós.

       O recolhimento, pois, nos leva a íntima solidão que é mais do que o desejo ou o fato de estar só. Não é ao percebermos quanto somos sós que nos tornamos solitários, mas ao sentirmos um pouco da solitude de Deus. É impossível viver para o próximo sem entrar nessa solidão.

       Quantos há que vivem em solidão e não a amam, porque é uma solidão sem recolhimento! Estão sós porque estão separados de Deus, dos outros homens e até de sim próprios.

        Dá-se o falso recolhimento quando tentamos, por esforços próprios, bloquear as coisas materiais, separar-nos á força da natureza e das pessoas, na esperança de não deixar na alma senão Deus. Quando tentamos isso, costumamos dividir o nosso ser contra si mesmo. Sem humildade, é inevitável o falso recolhimento.

(Thomas Merton : Homem algum é uma ilha)

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