Sinceridade

                                                                           

              Falar a verdade é o que nos torna reais. É difícil ao homem esquecer que precisa conhecer a verdade, pois o instinto de saber, em nós, é forte demais para ser destruído, mas , ele pode esquecer como é também forte sua necessidade de falar a verdade. Não podemos conhecer a verdade se não nos conformarmos com ela.

            Devemos ser verdadeiros por dentro, verdadeiros a nós mesmos, antes de podermos conhecer uma verdade que está fora de nós.

           Se os homens ainda hoje admiram a sinceridade, não é, talvez por causa da verdade que ela proteje, mas simplesmente por ser uma qualidade atraente na pessoa que a tem. Gostam de ser sinceros não por amor da Verdade, mas porque considerados sinceros, os outros o amarão.

         Somos muito parecidos com Pilatos. Vivemos sempre a perguntar “que é a verdade?”, e, depois, crucificamos a verdade que está em pé diante de nós.

        Que é pois, a verdade?

        A verdade, nas coisas, é a sua realidade. Em nossa mente, é a conformidade do nosso conhecimento com as coisas conhecidas. Em nossas palavras, é conformidade de nossas palavras com o que pensamos. Em nossa vida, é a conformidade das nossas ações com o que se supõe que sejamos.

       Verdade objetiva é uma realidade que se encontra tanto dentro como fora  de nós, à qual pode a nossa inteligencia conformar-se. Devemos conhecer essa verdade e manifesta-la por palavras e ações.

        Não se exige que se mostre tudo o que sabemos, porque há coisas que nos cumpre guardar ocultas dos homens. Mas, há outras que devemos tornar conhecidas, ainda que outros já as conheçam.

         Veracidade, sinceridade e Fidelidade têm estreito parentesco. Sinceridade é ser fiel à verdade. Fidelidade é ser veraz nas promessas e resoluções. Uma inviolável  veracidade nos torna fiéis a nós mesmos, a Deus e a realidade ambiente. E, por isso mesmo, faz-nos perfeitamente sinceros.

         A sinceridade, no seu mais profundo sentido, deve ser mais do que uma disposição temperamental à franqueza.

         A verdade é a vida da inteligencia. O espírito não vive plenamente, senão pensando direito. A sinceridade no sentido mais pleno, é um dom divino, uma clareza de espírito que só pode vir com a graça.

        O homem sincero, portanto, é o que tem a graça de saber que pode ser instintivamente insincero e que até a sua sinceridade natural pode converter-se em disfarce da irreponsabilidade e da covardia  moral- como se fosse bastante reconhecer a verdade e ficar de braços cruzados!

        Mas o mundo inteiro aprendeu a escarnecer da veracidade, ou a ignorá-la. Metade do mundo civilizado ganha  a vida pregando mentiras. A propaganda, os anúncios e todas as formas de publicidade que tomaram o lugar de verdade, ensinaram os homens a supor que podem dizer a outros o que quiserem, contanto que soe bem e provoque  neles uma resposta emocional profunda.

        Como nos é dificil ser sinceros uns com os outros, quando nem nos conhecemos a nós mesmos, nem uns aos outros.  A sinceridade é impossível sem humildade e amor sobrenatural.

        A falsa sinceridade tem muito a falar, porque ela tem medo. Só a verdadeira candura pode dar-se ao luxo de ser silenciosa.

          O raciocínio de algumas pessoas piedosas são muitas vezes insinceros, de uma insinceridade proporcional à sua cólera.

         Um homem de sinceridade interessa-se menos em defender a verdade do que em estabelecê-la claramente, porque ele pensa que a verdade claramente vista se incumbirá ela mesma a sua defesa.

       O medo é talve, o maior inimigo da sinceridade. Quantos homens temem seguir a consciência só porque preferem mil vezes conformar-se  à opinião dos outros a aderir à verdade que conhecem em seu coração! Como posso ser sincero, se mudo, sem cessar, de opinião para conformar-me à sombra do que penso que os outros esperam de mim?

      No final das contas, o problema da sinceridade é um problema de amor. Sincero não é tanto o homem que vê a verdade  e a manifesta tal qual a vê, mas o que lhe tem um puro amor.

       É dificil exprimir em palavras a importância dessa noção. O problema fundamental do nosso tempo não é a falta de conhecimento, mas a falta de amor.

        Para amarmos sinceramente, e com simplicidade, devemos primeiro vencer o medo de não sermos amados.

         A sinceridade é, talvez, a mais vitalmente importante qualidade da verdadeira oração. Ela é a única prova de Deus. Não importa a profundeza das nossas meditações, a severidade das penitências, não importa saber quão grande é a liturgia que celebramos, puro o nosso canto, nobres os pensamentos que temos sobre os mistérios de Deus. Tudo será inútil se não queremos realmente dizer o que dizemos.

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