Mística x Misticismo

A mística nos torna mais próximos da imagem original pensada por Deus
As palavras são muito parecidas. Mas a atitude é completamente oposta. O místico é alguém que vive do encontro pessoal com Deus. É possível ver no seu olhar o brilho do céu. Seus gestos refletem o calor transfigurado de alguém que foi profundamente tocado pela Graça. Podemos dizer, então, que o místico é alguém “cheio de graça”. Misticos sabem sorrir, sabem brincar, sabem rezar e fazer silêncio. O místico repousa no colo de Deus. É criança sem ser infantil. Vive antecipadamente na terra o que um dia viveremos eternamente no céu. É alguém que sente saudades do paraíso original e sabe que caminha para lá…

Místico sonha de olhos abertos. Não nega a realidade ou coloca panos quentes. Não tem medo de olhar para a política ou para economia. Místico verdadeiro tem a Bíblia em uma das mãos e na outra um jornal. Se está alheio à realidade, pode crer, místico ele não é, pois o místico, como Moisés, está sempre diante da Sarça Ardente ouvindo Deus falar: “Eu ouvi o clamor do meu povo. Vai lutar por libertação”. O místico é crítico sem ser amargo. É consciente sem ser ranzinza. É severo sem ser rigorista. É uma pessoa equilibrada. A mística nos torna mais humanos, mais próximos da imagem original pensada por Deus. A mística, portanto, é um caminho de santidade.

E o misticismo? É o subproduto. Se a mística transforma as pessoas a partir de dentro, o misticismo, como toda imitação, veste apenas uma ‘camiseta’. Pode ser cristã, ou hindú, espírita, ou evangélica… não faz diferença. O misticismo topa tudo por dinheiro. É religião de mercado. Faz dos símbolos religiosos uma grife. O misticismo não tem compromisso. É apenas adereço pessoal externo. Os “misticóides” costumam ser um pouco ridículos. Exageram nos badulaques. Colocam três ou quatro tercinhos espalhados pelo corpo. Raramente se dão conta de que aquele objeto foi feito para rezar. O misticismo não reza… fica zen; não medita, entra em “alfa”; e por aí vai. O misticismo não conhece o bom humor. “Misticóides” são primos-irmãos de fundamentalistas. São um prato cheio para o terrorista que precisa de uma “mula” que leve a bomba grudada ao próprio corpo. Isso não é matírio. É burrice. Não é heroísmo, por mais justa que seja a causa. Somente Deus tem direito sobre a vida e a morte. Mas o misticismo não percebe nada disso.

Será que existe misticismo católico? Infelizmente, sim. A mística coloca homens e mulheres no cotidiano e faz deles santos. O dentista místico reza contemplando a boca de seu paciente… e pacientemente o atende bem. O misticismo não tem tempo para clientes. Só pensa em seu próprio crescimento. A mística nasce do amor. O misticismo é filho do egoísmo. A mística se apóia nas virtudes como fé, esperança e caridade. O misticismo espiritualiza os sete pecados capitais. É um guloso espiritual. Deixa a família para ir em todos os retiros da paróquia. É colecionador de crachás. Depois, por isso, se acha melhor do que os outros e peca pela soberba espiritual. A prece para o misticismo tem de ser gostosa. Não vai à missa ‘daquele padre velhinho’ na segunda-feira… tem que ser padre “forte”, reza brava… ou seja, busca luxúria espiritual. “Feijão com arroz” não serve. Tem que ser missa especial, adoração de cura, padre famoso e de preferência transmitido pela TV. Grupo de oração de paróquia nem pensar… Show com som bem alto é que é bom. Por pensar demais em si mesmo e no cultivo da SUA mística, o pseudo-místico é avarento. E se alguém escrever um artigo no BLOG dizendo essas coisas, ele vai escrever um comentário bem IRADO. Falta somente um pecado capital: A inveja.

É isso… como o misticismo está muito distante da mística, seus reféns acabam sentindo inveja dos verdadeiros santos. Um deles nem percebeu o ato falho e me disse: “-Padre, tenho tanta inveja de Santa Terezinha do Menino Jesus…” Durma com um barulho desses!

Foto Padre Joãozinho, SCJ
Padre do Sagrado Coração de Jesus (dehoniano), doutor em teologia, diretor da Faculdade Dehoniana em Taubaté (SP) e autor de vários livros e canções. Conheça o blog do Pe. Joãozinho

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